segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Pantera Negra leva o universo da Marvel nos cinemas à um povo e cultura únicos em Wakanda


O Universo Cinematográfico da Marvel continua a crescer a passos largos, produzindo, em seu caminho, bastante conteúdo positivo que representa os mundos das HQs, assim como adaptações únicas que se destacam por si só e outras bem menos relevantes que se perdem em tamanho volume. Pantera Negra, por sua vez, vem para adicionar muito a esse universo, com representações singulares ainda não vistas nesse grande empreendimento da Marvel nos cinemas e explorando um lado mais cultural e político atípico da grande maioria dos filmes de super heróis.

Seguindo os eventos de Vingadores: Guerra Civil, após a morte do rei T'Chaka, o seu filho T'Challa (Chadwick Boseman) precisa retornar a Wakanda e assumir o trono do país. Junto a Okoye (Danai Gurira), a líder das Dora Milaje - forças especiais completamente feminina de Wakanda -, e sua ex-amante Nakia (Lupita Nyong'o) T'Challa segue para a cerimônia de coroação. No entanto, seu reinado é logo ameaçado quando o traficante Klaue (Andy Serkis) ressurge junto ao perigoso Killmonger (Michael B. Jordan) pondo o futuro de Wakanda em risco.

A avançada civilização de Wakanda tem um pouco de sua cultura explorada em Pantera Negra - Foto: Reprodução Internet

Uma primeira consideração a ser feita sobre o filme é o fato de que, após tantas adaptações desse universo cinematográfico, Pantera Negra consegue ter uma roupagem nova e causar a impressão de se estar assistindo um filme completamente diferente da Marvel, pois ele realmente é. Além de se passar em uma localização ainda não vista e abrir portas para se explorar toda uma parte inédita do globo, o filme é repleto de cultura e uma caracterização impecável que permitem causar essa experiência original.

Muito desse sucesso também vem de uma bem feita escolha de direção e elenco, que conta com um protagonista bem adaptado no seu papel e um elenco de apoio impressionante. Pessoalmente, a princesa Shuri (Letitia Wright) funciona como a melhor personagem do longa, com uma presença dinâmica e essencial para deixar a narrativa mais leve. Danai Gurira também está excelente na pele da guerreira Okoye, criando a expectativa de se ver mais das Dora Milaje, que provavelmente tem os visuais mais detalhados da adaptação.

O antagonista Killmonger/N'Jadaka é outro destaque que apresenta motivações bem exploradas na história e que é ainda auxiliado pela atuação convincente de Michael B. Jordan. O personagem acaba caindo em algumas convenções típicas de filmes de super herói, mas a medida que suas motivações passam a ser mais exploradas isso acaba mudando de tom, ainda que a premissa para que ele tenha conseguido as informações sobre Wakanda tenha sido um pouco falha.

T'Challa (Chadwick Boseman) batalha contra Killmonger (Michael B. Jordan) pelo trono de Wakanda - Foto: Reprodução Internet

Entrando na questão de Wakanda, um ponto fraco do filme é justamente não mostrar o suficiente da nação. Isso é compreensível, uma vez que a história recai principalmente sobre T'Challa e a sucessão do trono, mas é uma pena que mais dessa incrível potência não tenha sido explorada. Ainda, há alguns clássicos momentos estereotipados desse tipo de filme, como a suposta morte de um personagem ao longo da trama, fazendo-o desaparecer por um bom tempo, apenas para ressurgir depois.

Mesmo diante disso, Pantera Negra tem momentos bastante marcantes e todo o processo de sucessão que T'Challa precisa passar é muito bem construído, desde o ritual de coroação, o combate inicial com M'Baku (Winston Duke) e toda sua caminhada para retomar o poder. E o interessante é que o longa, muito mais do que uma história sobre o Pantera Negra, o herói, é, na verdade, uma história sobre T'Challa e aqueles que fazem parte do seu círculo.

Nakia (Lupita Nyong'o) e T'Challa (Chadwick Boseman) vão em uma missão para capturar o traficante de armas Klaue - Foto: Reprodução Internet

O longa conta, ainda, com elementos de 007 que contribuem para com a construção inicial da narrativa. Isso deixa de ficar tão evidente ao longo da história, quando passam a surgir mais e mais elementos de ação, o que funciona bem com o tom do filme que não conta com muitas piadas e desvios da narrativa.

A trilha sonora produzida por Kendrick Lamar foi um dos grandes focos da divulgação do trabalho e funciona bem com o filme, que tem produção e design em bons níveis, mas deixou a desejar nos efeitos especiais em alguns momentos, em especial no clímax.

Não seja por isso, Pantera Negra consegue, com sucesso, introduzir o herói e Wakanda para as telonas, adaptando os elementos da HQ de uma forma orgânica e tratando de temas atuais e relevantes sem distorcer a trama para isso.



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Capitã Phasma mostra a jornada tortuosa da vilã de Star Wars


Apresentada originalmente em Star Wars: O Despertar da Força, Phasma é a Capitã dos Stormtroopers, a primeira mulher a comandar os soldados no novo cânone da da franquia e tida como a maior e melhor Capitã da Primeira Ordem. Com um intenso marketing em cima da personagem, criou-se um mito em torno Phasma sobre quem ela é de verdade e qual o seu papel na franquia.

Sendo lançado em duas edições no Brasil pela Panini (segunda parte ainda inédita por aqui), “Capitã Phasma” é um quadrinho que faz parte do selo “Jornada para Star Wars: Os Últimos Jedi”, uma obra que tem como objetivo traçar mais detalhes da Stormtrooper prateada e preencher lacunas deixadas nos episódios sete e oito da franquia.

O quadrinho impressiona com seus traços marcantes - Foto: Reprodução internet

Escrito por Kelly Thompson (Mighty Morphin Power Rangers: Pink Ranger, Jem and the Holograms), o quadrinho se inicia após os acontecimentos vistos em Star Wars: O Despertar da Força. Phasma é aprisionada em um compactador de lixo por Finn, Han Solo e Chewbacca sendo forçada a desligar os escudos da base, mas ela não fica ali por muito tempo. Sem muitas dificuldades, escapa do lugar que está prestes a ser explodido pelas forças da Resistência, lideradas pela General Organa. Para limpar seu nome, Phasma acessa os computadores da base Starkiller e culpa o Tenente Rivas. Com a ajuda do Stormtrooper TN-3465, a Capitã parte em uma busca implicável para matar Rivas e manter sua reputação perante à Primeira Ordem.

Foto: Mega Hero

Com ótimas ilustrações e grandiosas cenas de combate, Capitã Phasma é uma leitura agradável para um final de tarde e, ao menos em sua primeira edição, é bastante tímida na abordagem da personagem. O que vemos são sequências das frustrações de Phasma durante à caça ao Tenente da Primeira Ordem até culminar no climax do quadrinho que acrescenta mais à mitologia de Star Wars do que da própria personagem. Em “Os Últimos Jedi” (2017), a Capitã é tida como morta, então cabe às mídias paralelas (quadrinhos, livros, jogos, etc), explorar a sua origem e entregar um material que sacie os fãs mais ávidos por informações sobre a Stormtrooper, caso essa seja realmente a proposta da Disney.

Sem muitas esperanças sigo para a segunda parte da história, interessado mais na subtrama que Thompson trouxe nas últimas páginas do que a jornada da personagem que leva o título da obra. Se você busca por uma leitura descontraída e sem muita pretensão, Capitã Phasma é o quadrinho que você procura, mas se você é um daqueles aventureiros no universo expandido de Star Wars, talvez seja melhor aguardar novas publicações envolvendo a personagem.

Ficha Técnica:
Título: Star War - Capitã Phasma (2017)
Editora: Marvel Comics
Roteiro: Kelly Thompson
Arte: Marco Checchetto
Cores: Andres Mossa
Capa: Paul Renaud
Número de páginas: 48

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Como os dois novos selos da DC Comics podem conquistar jovens leitores


Por Alexandre Teixeira

Para muitos fãs da DC Comics, a editora sempre possuiu uma característica única: conseguir criar histórias mais sérias e que cativassem seu público, independente da idade. Porém, ao mesmo tempo em que isso é algo positivo, também pode ser um ponto fraco, pois, por mais que personagens como o Batman, Superman e Mulher Maravilha tenham se tornado ícones e modelos, eles ainda deixam de retratar algumas questões que determinadas faixas etárias de leitores passam e convivem.

Possuidora de selos diversos, a DC usa-os para diferenciar suas publicações. Além do selo regular,
ela ainda possui a Vertigo, que é voltado a histórias muito mais sérias e com conteúdo não aconselhável a crianças. Títulos como Sandman, Watchman e V de Vingança fazem parte deste selo.

Agora em 2018, a editora irá lançar dois novos selos, focados em dois grupos bem próximos. O DC
Ink, que será focado em jovens adultos e o DC Zoom, que será focado nos adolescentes. Com esse anúncio vêm a pergunta: o que esses selos podem significar para o futuro da editora?

Justamente por ter essa característica de ser uma editora mais séria, os selos Ink e Zoom virão não só para quebrar essa ideia, mas também como uma chance de atrair novos leitores e explorar novos temas.

Para simplificar, aqui vai um exemplo: um dos títulos do selo DC Ink será uma história dos Jovens Titãs, escrita por Kami Garcia (Dezesseis Luas) e ilustrada pelo brasileiro Gabriel Picolo.

Arte promocional do artista Picolo para anunciar sua parceria com a DC Comics. Arte: Gabriel Picolo

Picolo é conhecido por suas fanarts dos Titãs, nas quais ele reimaginou o grupo como millennials (indivíduos que nasceram entre 1980 e 2000) e, graças a isso, conseguiu explorar questões mais atuais que acabam interferindo na vida dos jovens. Este é um ponto que a DC pode explorar dentro deste novo selo, e usar o grupo, que já possui uma fanbase bem sólida, para tratar de assuntos que afetam as pessoas desta faixa etária.

Já o selo DC Zoom, poderá usar personagem como o SHAZAM! para fazer com que crianças e adolescentes comecem a pensar mais em suas responsabilidades. Usando Billy Batson como modelo, as histórias podem tratar justamente sobre como o menino se porta e se sente em relação aos poderes que tem. Uma criança com poderes de um adulto. Nada melhor do que isso para tecer um paralelo com a realidade.

Títulos atuais como Super-Sons, também casam perfeitamente com a ideia da DC Zoom, e ainda somam pelo fato de que as histórias estão fazendo bastante sucesso.

Arte para o selo DC Zoom. Arte: Mayo "Sen" Naito

E tem maneira melhor de atrair novos leitores do que utilizando autoras já conhecidas? Essa é uma das ideias que a DC irá usar para seus novos selos. Nomes conhecidos entre os amantes de livros farão parte dos times que irão compor os dois selos.

Meg Cabot, criadora da série O Diário de uma Princesa; Marie Lu, criadora da série Legend; Kami
Garcia, criadora de Dezesseis Luas e Danielle Paige de Dorothy tem que Morrer são alguns dos nomes que irão integrar o grupo de escritores que criarão as novas histórias.

O interessante desta iniciativa é que, graças ao reconhecimento destas mulheres, além de trazerem ótimas histórias, elas também vão trazer os fãs que já acompanham seus trabalhos, e com isso, leitores que não possuem o costume de ler quadrinhos, podem começar a se interessar por esse modelo de leitura.

Esse é o momento certo para a DC lançar seus novos títulos, e com isso trabalhar questões que já estão sendo discutidas entre os jovens atualmente, como representatividade, questão de gênero e sexualidade, vida profissional e acadêmica.

Tudo isso fará com que a editora se aproxime ainda mais de seus leitores e desenvolva uma relação ainda mais pessoal com eles.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Inuyashiki traz questionamento sobre humanidade


Preciso confessar para vocês que as estórias mais inusitadas me conquistam logo de início, principalmente quando elas subvertem, de maneira inteligente, alguns clichês que tanto amamos. Dentre os vários motivos para o clichê funcionar, um dos mais inconvenientes de se livrar é o não saber lidar com o diferente. Talvez por isso me encantei por Inuyashiki.

Lançado em 2014 o mangá compreende 10 volumes, o último publicado em 2017. Escrito e ilustrado por Hiroya Oku, Inuyashiki conta a estória de um homem de meia idade com a aparência de um idoso (Inuyashiki Ichiro),  envolto nos problemas cotidianos de uma família de classe média no Japão.

Tentando cumprir suas responsabilidades com sua família de 4 pessoas: sua esposa,  um casal de filhos e cachorro. Ichiro enfrente a experiência de se sentir um completo fracasso na vida. Com desprezo, vergonha e ingratidão dos seus filhos, a indiferença de sua mulher, aliada a uma condição de saúde precária, Inuyashiki ainda precisa enfrentar o preconceito e a falta de respeito da sociedade com idosos.

A princípio a premissa pode parecer desinteressante aos olhos dos precipitados, entretanto com pouco mais de calma, nos é apresentado o ponto de virada da trama. Inuyashiki em momento de desespero, após saber que está com uma doença terminal,  é atingido por uma nave alienígena que imediatamente acaba o matando, juntamente com um rapaz que estava ao seu lado. Não podendo deixar rastros os alienígenas trocam os corpos biológicos por módulos de batalha robóticos com aparência humanoide - sim, é mais uma indicação de ficção científica.


É interessante acompanhar os questionamentos de um homem de meia idade ao fim da vida, pois agora ele não sabe exatamente se ele é ele mesmo, já que é uma máquina. Quando triste não pode chorar. Ao comer uma refeição não sente o paladar como antes. Sua audição e visão estão diferentes também. Além disso, Ichiro se questiona se precisa, a partir daquele momento, continuar sustentando sua família.
O mangá traz inicialmente a visão mesquinha das pessoas daquela sociedade. Cada indivíduo se importa apenas consigo mesmo, seus projetos, desejos e conquistas. O outro é utilizado de maneira descartável, como um mero objeto a ser jogado fora, mesmo se for para pura diversão. Isso é ser humano?

Uma máquina puramente sintética pode ser mais humana do que um ser de carne e osso? Como conquistamos nossa humanidade. Essa é a jornada que é apresentada a partir da nova vida de Inuyashiki, sua nova chance.


A abordagem diferenciada a história de origem de um “herói” dada pelo roteirista é revigorante, me instigou a acompanhar ainda mais o desenrolar da trama. Estou a procura do segundo volume, infelizmente ficou difícil conseguir, praticamente esgotado nas livrarias físicas e online. Aqui no Brasil o Mangá foi lançado pela Panini, inclusive o número 5 já está disponível. Ao término da leitura pretendo assistir o Anime, lançado no segundo semestre de 2017 compreendendo 10 episódios. Para minha surpresa eles ainda vão lançar um live-action no primeiro semestre de 2018. Ficaram interessados? Espero a companhia de vocês nas leituras!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Psycho-Pass: A sociedade do controle e da vigilância


A ficção científica é uma das minha paixões tanto nos livros quanto nas artes visuais. Sempre que sobra um tempo procuro coisas novas para ler ou assistir, afinal os clássicos são mandatórios, porém não se vive só deles. Numa dessas incursões encontrei Psycho-Pass: anime policial de ficção científica cyberpunk. Com inúmeras referências visuais e temáticas de clássicos como: Ghost in the Shell, Neuromancer, Minority Report e Blade Runner. O anime traz uma visão distópica interessante do futuro a partir de uma abordagem diferenciada.

Foto: Reprodução internet

Psycho-Pass tem duas temporadas, um longa metragem, mangás e jogo. Sugiro que assistam na ordem de lançamento de cada obra. A primeira temporada lançada no segundo semestre de 2012 conta a estória de Akane Tsunemori, recém chegada a primeira unidade da divisão de investigação criminal do escritório de segurança pública do Japão. Em seu primeiro dia de trabalho ela precisa resolver um caso perigoso sem nenhuma experiência de campo. No entanto, ela contará com a ajuda da arma Dominator e de seus companheiros de unidade: o inspector Nobuchika Ginoza; os Justiceiros Tomomi Masaoka, Shusei Kagari, Yayoi Kunizuka e Shinya Kogami que desempenha um papel importante durante a trama.

Foto: Reprodução personagem

Ambientada em uma sociedade do futuro que alcançou um nível de controle e vigilância altíssimo a partir de uma inteligência artificial, o Sibyl System. Tsunemori e sua equipe resolvem inúmeros casos durante a temporada de 22 episódios de aproximadamente 20 minutos. A estrutura do anime é composta, em parte, pela resolução de um caso por episódio, sendo unidos pela trama principal do sistema Sibyl.

O sistema controla a vida dos cidadãos basicamente em todos os níveis de existência. Desde de seu nascimento, passando pela profissão que cada um pode desempenhar na sociedade, alimentação diária e  saúde mental. O elemento temático do controle e vigilância das intenções violentas ou agressivas dos indivíduos é bem trabalhado durante a temporada, especialmente a quantificação da existência e da subjetividade, princípio central do sistema  que é questionado durante a tempora. Em cada episódio Tsunemori entra em conflito com os princípios do sistema Sibyl, nos conduzindo no exercício de estranhamento de nossa realidade. Questionamentos como: é possível reduzir o indivíduo a um coeficiente criminal? É correto executar uma pessoa que não cometeu nenhum crime? Além disso, é assustador como tal sociedade se tornou absolutamente autoritária com o consentimento de seus cidadão, subjugando suas consciência e poder de decisão para um sistema supostamente justo e automatizado.

Foto: Reprodução internet

Um ponto do anime que talvez incomode as pessoas são os diálogos expositivos e professorais, principalmente nos momentos finais. Eles chegam a citar os nomes de alguns pensadores famosos que com certeza você já deve ter escutado em sua aula de filosofia. Entretanto, a qualidade do anime não fica prejudicada, pois com a beleza estética, boa história, excelente desenvolvimento de personagem aliado a uma boa trilha, Psycho-Pass é uma pedida certa para você que gosta de ficção científica. Inclusive, a Panini publicará os mangás aqui no Brasil em 2018, estou particularmente na expectativa para ler e vocês?

Ficha técnica

Produção:  Production I.G
Direção: Naoyoshi Shiotani and Katsuyuki Motohiro
Roteiro:  Gen Urobuchi
Design de Personagens:  Akira Amano
Música:  Yugo Kanno

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ordem Vermelha - Filhos da Degradação evidencia confito pela liberdade em um mundo fantástico imerso em segredos


"Após tanta dor e lamento, o mundo se reduziu a um deserto, e esse deserto recebeu o nome de Degradação. Sobrou apenas um único pedaço de terra habitável, aos pés do monte Ahtul, próximo aos Grandes Pântanos formados durante a guerra. No cume, os Deuses combatiam os últimos dos mesquinhos gigantes, que se revoltavam contra os castigos recebidos. Então, com as mãos repletas do sangue vermelho dos desobedientes, os Seis perceberam que tinham se tornado tão cruéis quanto aqueles que não honraram suas bênçãos. Assim, eles decidiram tornar-se algo novo, sem falhas. Assim, eles decidiram tornar-se um só. Assim, surgiu a deusa de seis faces, a deusa Una."

Neste mundo fantástico, contam as lendas que, no início, nada havia senão os Seis Deuses. Foram eles que criaram o mundo e as criaturas que serviriam de protetoras para as diferentes áreas que o compunham. A raça humana, que cobiçava as qualidades das outras criaturas, incitou guerras e a discórdia entre as diversas raças, fazendo com que os deuses as castigassem com pragas que possuíram o mundo com monstros, maldições e morte. A partir daí, os Seis perceberam que não mais poderiam governar com todo o mal que haviam causado, se unindo em algo novo, a deusa Una.

A deusa permitiu às criaturas sobreviventes que ocupassem as terras aos pés do monte Ahtul, formando-se ali uma cidade murada chamada Untherak, onde as criaturas conviveriam e adorariam a deusa. E é com essa premissa que a história de A Ordem Vermelha - Filhos da Degradação, uma obra de fantasia nacional pelo autor Felipe Castilho, se inicia.

A cidade de Untherak protege a vida da Degradação que se encontra fora dos muros. No seu seio, uma estátua gigante da deusa Una foi erguida para todos observar - Imagem: Reprodução Internet
Vivendo no coração de Untherak, o humano Aelian foi submetido desde sua infância ao regime de servidão que reina pela cidade, trabalhando no Poleiro. Sem muitas aspirações, o jovem cumpria os seis dias obrigatórios de trabalho impostos pelo regime da deusa, os suavizando com frequentes escapadas pelos telhados do Miolo - o centro de Untherak - ao lado do seu amigo falcão, Bicofino, podendo, ao final do sexto dia, aproveitar o Dia de Louvor jogando dados fora do Miolo.

A presença do regime de servidão é elemento presente ao longo de toda a obra. A restrição à liberdade dos protagonistas por Una e aqueles que a servem, principalmente as Autoridades, torna-se uma das principais causas dos eventos que vem a se desenrolar, sendo todo o detalhado e maquinado regime muito explorado na narrativa.

Aelian, ainda que infeliz com a situação em que se encontra, já se acostumou com a sua vida e acaba sendo levado ao longo dos acontecimentos por forças do destino e razões ainda não muito exploradas. Isso faz com que o personagem seja quase que um coadjuvante nesse primeiro momento da saga e até tomando escolhas de um coadjuvante, deixando claro que ele não é um herói, ou, pelo menos, ainda não despertou esse lado em si.

Raazi, Aelian e a deusa Una são personagens centrais da história de Felipe Castilho - Imagem: Reprodução Internet

Por outro lado, o mesmo não pode ser dito da kaorsh Raazi. Altivos e esguios, os kaorshs são uma raça humanoide que utiliza o próprio corpo para expressar a sua arte, sendo capazes de alterar seus tons de pele de maneiras inimagináveis. Raazi, que muito valoriza os seus costumes, se depara, juntamente a Yanisha, sua esposa, com um segredo capaz de abalar as estruturas de Untherak. Diante dessa descoberta, ambas resolvem agir e expor uma farsa que cobre a cidade, mesmo sobre o custo de suas próprias vidas.

Raazi é a verdadeira heroína da obra, sendo ela responsável, em diversos momentos, por pontos de virada na história e determinante para momentos chave. Não apenas nesse sentido, a kaorsh ainda torna-se líder em diversos momentos do grupo de protagonistas, que é formado ainda por um anão com motivações questionáveis, um sinfo - pequeno ser com aparência infantil que possui afinidade com a natureza -, uma assassina de aluguel e uma figura misteriosa com ainda mais segredos.

Juntos, esse grupo disforme precisa executar um plano inimaginável e enfrentar desafios que parecem inatingíveis. E são exatamente as qualidades únicas de cada um que os permite seguir em frente com as suas aspirações, sendo todos eles bem explorados, ainda que o foco da narrativa recaia sobre Aelian e Raazi.

O mundo fantástico da Ordem Vermelha é composto pelas mais variadas criaturas, assim como o grupo dos protagonistas - Imagem: Reprodução Internet

A construção da história, por sua vez, ocorre bem vagarosamente. Toda o primeiro ato serve para introduzir esse novo mundo e seus conceitos únicos. Até o Festival da Morte, evento no qual Raazi e Yanisha planejam executar o seu plano, há um desenvolvimento lento de acontecimentos, sendo o foco, principalmente, jogado sobre a estrutura da cidade de Untherak, assim como há alguns cortes entre o passado e o presente que podem desinteressar o leitor em prosseguir com a obra.

Ainda assim, essa ferramenta de utilizar diferentes linhas temporais acaba funcionando para explicar pontas soltas. Em verdade, Filhos da Degradação, em sua totalidade, faz um bom trabalho em explicar o seu universo para novos leitores. Questões que podem parecer confusas e até segredos que seriam revelados ao final de uma saga são explorados já nesse primeiro livro, dando um bom rumo a aqueles que buscam se envolver nessa fantasia.

O ritmo da narrativa também ganha nova face após o Festival da Morte. É a partir dele que os caminhos dos personagens passam a convergir e quando o autor passa a revelar alguns mistérios.

O vermelho foi proibido pela deusa Una, mas reaparece em diversos momentos ao longo da obra. Edição nacional do livro Ordem Vermelha - Filhos da Degradação pelo autor Felipe Castilho e impresso pela editora Intrínseca - Foto: Mega Hero

Uma questão interessante que surge logo no início da trama, cresce e é incorporada na história é o sentimento de "conspiração" que rodeia Untherak. Nada parece certo nesse sistema perfeito e a obra dá dicas ao leitor antes mesmo de explorar totalmente essas noções, fazendo com que a leitura seja, de certo modo, interativa em alguns momentos.

Há, de mesmo maneira, um ponto peculiar sobre o desenvolvimento de Raazi e Aelian. Enquanto a kaorsh é bem explorada e, ao final do primeiro livro, é colocada em uma posição que cria a dúvida "até onde ela crescerá?", o humano, por sua vez, acaba tendo uma mudança de sua determinação e cria a dúvida "quanto ele mudará?", considerando que o livro se encerra fechando muitas das portas então percorridas, mas abrindo ainda mais para futuros trabalhos.

Em um panorama geral, Felipe Castilho faz um bom trabalho em introduzir uma gama de personagens e culturas singulares, apresentando uma narrativa instigante, mas que, acima de tudo, faz com que a Ordem Vermelha - Filhos da Degradação traga boas promessas para o futuro da saga, com muito a ser explorado.

Ficha Técnica:
Título: Ordem Vermelha - Filhos da Degradação (Brasil, 2017)
Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Ilustração e Lettering da Capa: Rodrigo Bastos Didier
Número de páginas: 448