quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ouija - Origem do Mal busca complementar uma história já contada, mas falha em criar identidade própria


Quando se pensa no gênero Terror em face às produções cinematográficas atuais, o subgênero que mais se destaca pela quantidade de títulos e pela preferência do grande público é certamente aquele que remete aos chamados "filmes de espíritos". Na última década, é seguro falar que esses filmes encabeçaram a produção do gênero, gerando, inclusive, continuações e continuações de trabalhos originais e remakes. Com Ouija - Origem do Mal (Ouija: Origin of Evil), não é diferente, sendo ele uma continuação que conta os eventos prévios do longa Ouija de 2014.

O filme se passa cerca de 50 anos antes do primeiro, no qual uma família com problemas financeiros nos anos 60 busca superar a morte de um amado marido e pai. Alice Zander (Elizabeth Reaser), a mãe, passa, então, a ganhar a vida como vidente, se utilizando de técnicas e efeitos para enganar seus clientes e levá-los a acreditar que seu trabalho é real, até que sua filha mais velha Lina (Annalise Basso), dá a ideia de adicionar um tabuleiro de ouija à encenação. O que acontece em seguida, contudo, acaba mudando a vida da família e afetando diretamente Doris (Lulu Wilson), a filha mais nova.

O plot da obra, por si só, já é bastante interessante. A ideia de uma pseudo vidente que se utiliza de meios para iludir seus clientes funciona muito bem para introduzir a história. É de se esperar que, com um trabalho como esse, em algum ponto as coisas passem a dar errado e a situação fique mais sombria.

Dito isso, o tom do filme, no seu primeiro terço, se aproxima muito mais de um drama do que um terror, ficando evidente a preocupação em estabelecer os personagens e construir a trama com cuidado. Alice é uma personagem bastante cativante, pois, por mais que seja uma farsa, tem boas intenções e se esforça para ser uma boa mãe, o que é muito bem retratado por Elizabeth Reaser. Da mesma forma, Lina é muito bem situada no contexto da história, enquanto Doris, por outro lado, acaba não sendo bem introduzida e só vem a ter participações marcantes mais a frente.

Alice (Elizabeth Reaser) e Doris (Lulu Wilson) realizam uma sessão com o Padre Tom (Henry Thomas) - Foto: Reprodução/Universal Pictures

O segundo terço do longa introduz de forma exemplar a tensão, passando a exibir momentos mais intensos a medida que a atividade com o tabuleiro de ouija aumenta. Pequenos jumpscares não atrapalham o desenvolvimento da trama, funcionando bem para envolver o espectador.

A parte final da história conta com uma mudança completa do seu ritmo, agora com cenas e acontecimentos corridos e deixando de lado toda a tensão previamente construida. O diretor Mike Flanagan escolheu recorrer a recursos batidos e baratos do terror, como possessões aleatórias, mortes exageradas e até mesmo jumpscares precários e desnecessários.

Essa é uma falha visível nos demais filmes de terror que abordam a temática de espíritos. Outra questão é que o mercado está saturado, então encontrar e executar ideias inovadoras se torna uma tarefa bastante árdua. Ainda, ao se escolher produzir uma continuação, é preciso encontrar meios que diferenciem o novo trabalho do anterior, criando uma identidade própria à nova produção.

Diante disso, o ponto mais fraco do filme certamente é sua similaridade com seu antecessor (Ouija de 2014). Talvez seja bondade demais falar em similaridades, vez que, principalmente no terço final, a trama se torna exatamente a mesma, com a mesma descoberta de que o tabuleiro está ligado a algo a mais e que já havia algo na casa.

Para qualquer pessoa que tenha assistido o filme de 2014, poderá a continuação ser uma grande decepção por passar a sensação de se estar assistindo o mesmo filme, sem contar com seu final insatisfatório. Existem, ainda, algumas incoerências entre os dois, que poderiam muito bem serem evitadas com o mínimo de atenção.

Ainda assim, os defeitos do longa não o tornam uma obra que não deva ser assistida. Existe sim um grande problema com sua finalização, mas a construção da trama e dos personagens é muito bem realizada. O ideal seria que, para aqueles que não assistiram o primeiro, escolhessem um dos filmes, uma vez que funcionam bem como obras separadas, enquanto para aqueles que já conhecem o trabalho de 2014, que busquem assistir Ouija - Origem do Mal com novos olhos para não se depararem com o mesmo filme.

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