Nós é mais uma obra inquietante e surreal de Jordan Peele


Meu primeiro contato com Jordan Peele foi em sua estreia como diretor em Corra! e, assim como grande parte da crítica, fiquei positivamente surpreso com a sua qualidade de produção em geral e com a sua aptidão para trabalhar com o terror. Para o seu próximo trabalho em Nós, as expectativas eram altas, mas mantive um pé atrás, pois com apenas um comparativo na carreira, queria ver o que  Peele faria com outra história.

É um pouco difícil falar da trama de Nós sem soltar alguns spoilers, mas tendo em mente aquilo mostrado no trailer e na divulgação é possível dizer que a história segue Adelaide Wilson (Lupita Nyong'o), que sai de férias com o seu marido Gabe Wilson (Winston Duke) e seus dois filhos. Ao chegarem na casa de veraneio, Adelaide começa a se lembrar de um evento traumático da sua infância, com a situação passando rapidamente de um tranquilo feriado, para um terror com proporções gigantescas.

O que aparentemente parece ser apenas uma invasão domiciliar, rapidamente muda de foco quando os Wilson percebem que os invasores tem os mesmos rostos que eles e claramente há algo maior acontecendo.

A tensão desse primeiro momento é extrema e são os trejeitos e expressões de cada personagem que sustentam a cena. Em especial Lupita Nyong'o está fantástica, havendo distinções claras entre a protagonista e sua conta parte invasora. E não apenas ai, Lupita mantém a qualidade por todo o longa, sendo auxiliada pelo resto do elenco, em especial por Winston Duke, que em meio a toda a pesada ambiência, serve como um leve alívio cômico, mas sem exageros.

Lupita interpreta o terror de uma mãe que precisa proteger os seus filhos - Foto por: Claudette Barius - © Universal Pictures.

Por sinal, é muito bom ver mais um terror estrelado e protagonizado por atores de qualidade representando personagens inteligentes e reativos, fugindo um pouco do típico protagonista irrealista dos filmes de terror, com reações que pelo menos eu espero de um bom protagonista (como acertar um taco de beisebol bem no meio da cara de um vilão, ao invés de errar dez vezes e ser morto no processo). E o fato dos Wilson serem bons protagonistas me fez torcer por eles, o que deixa toda a trama muito mais interessante e envolvente.

Mas o crédito não vai apenas para um bom elenco. Jordan Peele constrói as cenas com perfeição, seja por meio de filmagens bem executadas, ou pela construção do projeto como um todo. Ainda assim, há alguns momentos que se destacam negativamente.

A atmosfera aterrorizante é marcante no uso das sombras por boa parte do longa - Foto por: Claudette Barius - © Universal Pictures.

O filme acaba sendo segmentado em duas partes. Na primeira, há a invasão à casa dos Wilson, onde a tensão é muito presente e todo o momento é bastante contido. Na segunda parte, há uma clara expansão da narrativa, com a presença até mesmo de elementos sci-fi que lembram um episódio de Arquivo X e todo o foco do longa é mudado para uma subtrama bem maior. O problema disso é justamente que a tensão vai embora, mas a trama não deixa de ser interessante com plot twists bem posicionados, ainda que muitas dicas sejam dadas sobre alguns deles, perdendo um pouco do seu efeito.

De qualquer modo, toda a construção do projeto é muito bem feita em uma história original e novamente fiquei impressionado e cativado pelo trabalho do diretor. A situação surreal que é posta em foco traz vários questionamentos que combinam bem com outros aspectos do longa e há elementos usados que poderiam muito bem ter sido feitos por algum conhecido mestre do terror, o que me deixa animado para produções futuras de Jordan Peele.


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