quinta-feira, 30 de março de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell respeita sua origem e expande o universo ciberpunk da obra


Em um futuro não mais tão distante, no ano de 2029, a tecnologia avançou a tal ponto que máquinas, androides, hologramas, inteligência artificial e implantes tecnológicos no homem são uma realidade. Mas os avanços não pretendem parar por aí, quando logo nos primeiros minutos do filme somos apresentados ao primeiro ser a ter um cérebro humano conectado a um corpo totalmente mecânico e melhorado.

Este invólucro chamado de shell (concha) pertence a Mira (Scarlett Johansson), uma ciborgue agente da Seção 9, especializada no combate de crimes cibernéticos. Desenhada para alcançar a perfeição, a Major é um super computador com um cérebro bem real e que consegue se conectar a rede espalhada agora por toda a cidade para expor e controlar situações de risco.


Em uma cidade com tecnologia exacerbada e um visual ciberpunk caótico, cérebros humanos também começam a ser hackeados e os diversos crimes chamam a atenção da seção contra crimes cibernéticos pelo incomum padrão e pelo fato de não serem máquinas, mas sim pessoas comuns sendo atacadas,

A Major, como elite do grupo, usa de seus artifícios bastante específicos e úteis para recuperar carcaças de maquinas adulteradas e encontrar o hacker por trás dos ataques aos cientistas da empresa a qual Mira pertence. Justamente por possuir um cérebro humano, a Major toma decisões por si só, muitas vezes não seguindo ordens diretas. Ela escolhe então escanear profundamente uma máquina hackeada, colocando em risco o seu Ghost, a mente que rege seu corpo e sua programação.


Pela total eficiência da agente, após muita perseguição e trabalho em equipe com os outros membros da Seção 9, a Major acaba por encontrar o inimigo. Mas este encontro vai mudar para sempre a mente da ciborgue, já que na verdade tudo que ela conhecia até aquele momento e sua missão foram mentiras e memórias falsas implantadas para controlá-la. Ela agora vai atrás de respostas para compreender exatamente o que e quem é, ao mesmo tempo que soluciona o mistério em que está envolvida.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell é um live-action adaptado de um mangá e filme ambos chamados Ghost in the Shell, além de possuir continuações com séries e OVA's. A animação de 1995 apresenta para o público a complexidade do universo do autor Shirow Masamune, que já na década de 90 imaginou um mundo inteiramente gerido através da tecnologia e redes de internet, com uma seção própria para combater os crimes cibernéticos - que já são uma realidade atual.


A animação de origem japonesa possui estética e linguagem próprias, que podem causar estranheza àqueles que não têm o costume de consumir obras do mercado oriental. Com zero comprometimento em elaborar uma explicação simples e trama linear, o filme animado percorre uma história similar ao do live-action, mas sem adentrar em detalhes sobre o passado ou motivações da protagonista Motoko Kusanagi.

É possível afirmar que o material original foi inteiramente aproveitado na nova adaptação, não só com relação ao visual e a história, mas também com uma linguagem bastante próxima à animação. A Vigilante do Amanhã consegue contar a história de Ghost in the Shell, ao mesmo tempo que organiza a trama e explica alguns fatos deixados subentendidos no conto original, além de transformar a personagem principal e uma protagonista mais palatável e vendável para o público dos cinemas ocidentais.

Para quem gosta de adaptações, é extremamente satisfatório observar o cuidado da equipe do diretor Rupert Sanders e do diretor de fotografia Jess Hall  ao preservarem essência do material, trazendo até algumas cenas bastante parecidas com as desenhadas no longa de 1995. Os elementos estão todos lá, só que desta vez com atores reais e um uso muito bem empregado dos efeitos especiais de ponta, que fazem toda a diferença na produção de um conto futurístico e tecnológico.


Ainda falando em semelhanças, os fãs podem observar toda a equipe principal da Seção 9 em ação, com um casting de elenco que se preocupou com as características físicas dos personagens, trazendo à vida ícones da mitologia como Batou, Aramaki e Togusa. Os elementos visuais como jogo de câmeras, enquadramentos e cores também foram preservados, ajudando a reproduzir o clima moderno e sombrio da animação, representando um futuro frio e conturbado por causa do uso excessivo da tecnologia.

Apesar de ser uma obra antiga, Ghost in the Shell consegue fazer uma crítica bastante pertinente e atual com relação ao uso e domínio da tecnologia no dia-a-dia da sociedade, ao mostrar as imensas possibilidades práticas de ter avanços tecnológicos ao alcance de muitos ao mesmo tempo que também marginaliza e controla uma parcela de pessoas através dela.

Para quem ficou ou está preocupado com a eficiência de Johansson no papel principal, ou pelo fato dela e parte do elenco não serem orientais, pode-se dizer duas coisas. Sobre seu desempenho, a atriz não deixa a desejar e coloca-se novamente em um papel onde consegue demostrar suas capacidades físicas e artísticas ao retratar uma ciborgue sem muita emoção, mas com muitos conflitos, e sua super habilidade. E a segunda sobre a falta de asiáticos, que para quem prestar atenção à trama conseguirá compreender a mensagem deixada no filme sobre capitalismo, comércio e exclusividade tecnológica para quem tem maiores condições financeiras.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell é uma adição coesa e de qualidade ao universo Sci-fi cinematográfico, que consegue entregar sua proposta respeitando a obra original, ao mesmo tempo que apresenta sua mitologia para a nova geração de fãs, com uma nova história que abre possibilidades encorajadoras para possíveis continuações ou simplesmente para que surjam mais produções dentro da temática e estética ciberpunk nos cinemas.

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