quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Passageiros é um drama intergalático sobre as relações humanas


Chris Pratt, nosso Senhor das Estrelas, desta vez se encontra sem seus equipamentos para salvá-lo do infinito espaço e acaba enjaulado dentro de uma nave em rota para um novo mundo.

Passageiros conta a história que nós assistimos milhões de vezes: como estamos fadados a ter de procurar por novas moradas em outros mundos para sobreviver a destruição ou super-população da Terra. O que é diferente neste drama? Bem, filmes com este tipo de premissa, geralmente, carregam uma grande dose de ação em seu desenvolvimento. Mas Passageiros é um filme que traz um drama reflexivo para os expectadores, que poderão fazer diversos tipos de considerações sobre a natureza humana, quando forçada a seu extremo.

A bordo da super moderna nave Avalon, mais de cinco mil passageiros aguardam sua chegada a nova colônia espacial Homestead II. Todos, incluindo a tripulação encontram-se em estado de hibernação em suas cápsulas de criogênio aguardando os 120 anos de viagem para chegar ao seu novo lar. A nave está preparada e equipada para o momento em que seus ocupantes acordarem e desfrutarem de uma curta viagem espacial até o planeta. Mas um acidente faz com que a capsula do engenheiro mecânico Jim Preston (Chris Pratt), o acorde 90 anos antes da verdadeira chegada a Homestead II.

Desesperado, Jim tenta de tudo para voltar a hibernar, sendo, convenientemente um engenheiro mecânico, consegue entender os manuais da nave o suficiente para aprender a ligar e desligar as capsulas, mas a sua parece não querer voltar a funcionar. Sozinho e com toda nave a seu dispor, menos suas refeições que faziam parte da passagem mais barata, Jim tenta aproveitar o máximo de sua estadia na Avalon e desfruta da companhia do androide barman Arthur (Michael Sheen).

Ficar com uma nave super tecnológica deve ser legal, mas até quando? O verdadeiro drama começa quando a solidão e a depressão tomam conta de Jim, que já não se contenta com as conversas engessadas de Arthur, as bebidas, ou com sua rotina na nave. Jim acaba por conhecer, ou esbarrar, na capsula da jornalista Aurora Lane (Jennifer Lawrence) e em seu isolamento após assistir alguns vídeos de Aurora sobre a viagem na Avalon, acaba se apaixonando pela moça. Os dias que Jim possui de sobra vão passando e uma ideia diabólica, mas incrivelmente humana, aparece em sua mente. Ele não precisa mais ficar sozinho. Existem mais de cinco mil passageiros na nave e ele já possui fortes sentimentos por uma em especial.

E aqui está o grande dilema do filme, acordar ou não acordar Aurora? Pelo cartaz, trailers e o próprio título, PassageiroS, já sabemos da decisão de Jim. Agora são duas pessoas presas por 90 anos dentro da Avalon. Aurora tinha uma passagem de ida e uma de volta. Seu plano era ser a primeira jornalista a escrever sobre a vida em Homestead II e a voltar para Terra no futuro, mais de 200 anos depois e contar sua história. Ao ver-se presa na nave e sem a possibilidade de dar continuidade a sua vida, Aurora não aceita tão bem quando Jim. A relação dos dois com Arthur rende várias reflexões e momentos interessantes sobre o convívio.

Boa parte do filme somos envolvidos por reflexões e dramas dos personagens que quase esquecemos que a capsula de Jim deu um defeito e por isso a nave não está 100%. Teoricamente ele nunca deveria ter acordado, capsulas não dão defeito. A nave apresenta durante o filme várias falhas, que são ignoradas tanto pelos personagens quanto pelos espectadores, mas alguma hora tínhamos que nos dar conta que algo estava terrivelmente errado.

Bem, para quem gosta de um bom filme de ação no espaço e já tinha perdido as esperanças com o meu relato sobre drama interpessoal, está parte é para você. As falhas finalmente chegam a um nível crítico e Aurora e Jim vão precisar esquecer seus problemas para salvar não só sua vida inteira na nave, como a vida das mais de cinco mil pessoas que estão hibernando dentro dela. Os momentos sobre a sobrevivência física dos personagens gera uma tensão em quem assiste, pois não há real garantia que um engenheiro mecânico e uma jornalista realmente irão conseguir consertar o que há de errado com uma nave tão grande e complexa como a Avalon. Sofremos juntos e pedimos por uma resolução que salve a todos, mas especialmente os dois que estão fadados a viver, envelhecer e morrer na nave.

Chris Pratt vive muito bem o papel tanto do engenheiro mecânico em busca de uma nova oportunidade no novo planeta, a personificação da depressão depois de perder as esperanças e do homem que transborda um misto de afeito e remorso pelo que fez com Aurora. Já Jennifer Lawrence convence como jornalista e consegue passar mais do que bem a frustração que sente pelo seu novo destino, sem mais spoilers... juro que não gostaria de ser o Chris Pratt em algumas das cenas descontroladas de Lawrence. O argumento do filme e seu visual também são facilmente comprados pelo público, um por ser um conceito já conhecido e talvez esperado da humanidade e dois porque já torcemos por naves espaciais tão completas e seguras que nos levem para o espaço.

Mas o nosso conceito de final feliz pode não ser o mesmo dos agora habitantes da Avalon. Com características da personalidade e atitudes humanas muito próximas da realidade, Passageiros escancara a natureza do desespero, solidão, depressão, amor e diversas outras emoções intensas vividas pelos seus personagens, causando uma reflexão interior sobre o limite do certo e errado e a loucura.

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