quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Asian IN Fashion #32 | Gueixas


Aconteceu nos dias 31/08 e 01/09 o VII Festival da Cultura Japonesa – XXIII Bon Odori em Salvador, na sede da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), em Piatã. Nesse evento foram mostrados em diversos espaços aspectos da cultura japonesa, dança teatro, musica, moda entre outros. Inspirada na cultura tradicional japonesa falarei da moda das gueixas, suas origens e as inspirações que elas trazem para o mundo fashion.

Origens

O surgimento da gueixa tem muito a ver com a maneira pela qual a sociedade japonesa foi organizada durante o governo dos xóguns da família Tokugawa, também conhecido como a Era Edo (1603 – 1867). No século XVII, nas primeiras décadas do estabelecimento do xogunato, crescentes medidas de controle da vida civil foram tomadas objetivando não só estabilidade interna, mas a manutenção do clã Tokugawa no poder, o que deu à sociedade como um todo uma forma feudal, rígida e hierarquizada, de pouca mobilidade de uma classe a outra e fechada em si mesma. Influências externas, como o cristianismo, eram vistas como negativas e subversivas, de tal modo que em 1637 um édito do xogunato ordenou a proibição do comércio e da vinda de navios europeus (excetuando os holandeses da Cia. das Índias, que eram tolerados por não misturar religião ao comércio, e que ficavam isolados em uma ilha perto de Nagasaki) e a expulsão dos estrangeiros, impondo um isolamento do Japão que se estenderia por dois séculos.

Geisha de Tokyo. Um cartão postal japonês publicado de Pequim (Beijing), China para a França
em 1908
A Geisha Hawaryu - Meiji. Era da beleza do Japão antigo.
O controle do governo sobre a sociedade civil atingiu em especial as mulheres. Excetuando os papéis de mãe, esposa e dona de casa, não havia uma profissão que uma mulher pudesse exercer, que não fosse na condição de auxiliar de seu marido na agricultura, ou num comércio dirigido pelo esposo – trabalhos que eram considerados “obrigação” da mulher e que, por isso, não recebia uma remuneração específica. A falta de opções de profissões para as mulheres foi agravada em 1629, quando por lei o xógun tornou o teatro uma atividade proibida às mulheres. Impedidas de praticar atividades de entretenimento em público, os palcos foram rapidamente ocupados por homens travestidos, para substituir a presença feminina em cena. Não tendo um marido ou uma família que a sustentasse, restava à mulher apenas a prostituição como meio de subsistência.

A palavra gueixa significa literalmente “pessoa da arte, artista”, e ela foi originalmente usada para designar comediantes e músicos que se apresentavam em banquetes e festas particulares no século XVII. Assim, as primeiras gueixas não foram mulheres, mas homens. Os otoko-geisha (artistas masculinos) eram especializados em entreter pequenas platéias em festas, dançando, cantando contando histórias e piadas. Como os palcos estavam proibidos às mulheres, as festas privadas tornaram-se os únicos lugares onde as mulheres podiam tocar música, dançar e cantar, e assim surgiram as onna-geisha (artistas femininas).


Entretanto, aquela era uma época em que a atividade artística e prostituição se confundiam. Donos de pousadas e de casas de chá ofereciam suas funcionárias, que de dia eram arrumadeiras e garçonetes, como prostitutas à noite, ao que se dava o sutil nome de “serviço de travesseiro”. Nem sempre se tratava de prostituição voluntária – patrões inescrupulosos diziam às empregadas “agrade o cliente ou vá embora”. Em sua origem o teatro kabuki era predominantemente feminino, porém muitas dançarinas de kabuki se prostituíam e escândalos de samurais envolvidos com elas na capital foram a causa da proibição de 1629.

As precursoras da gueixa do sexo feminino foram as adolescentes odoriko ("dançarinas"). Na década de 1680, elas eram populares artistas pagas nas casas particulares da alta classe samurai, apesar de muitas se transformarem em prostitutas no início do século XVIII. Aquelas que não eram mais adotaram outros nomes, sendo um deles gueixa, se assemelhando aos artistas percussores masculinos. A primeira mulher conhecida por ter chamado a si mesma de gueixa era uma prostituta de Fukagawa, em cerca de 1750. Ela era uma ótima cantora e tocadora de shamisen chamada Kikuya, e que foi um sucesso imediato, tornando as gueixas mulheres extremamente populares na década de 1750 em Fukagawa.

Assim, a clientela dos banquetes não esperava menos das mulheres artistas. Embora durante muito tempo a atividade de gueixa confundiu-se com prostituição, a partir do século XVIII medidas que oficializaram e regulamentaram a prostituição acabaram distinguindo as prostitutas das gueixas.

Três gueixas pousando no ENAMI'S YOKOHAMA STUDIO C. 1892-95
Como esta cultura tornou-se mais popular ao longo dos anos de 1760 e 1770, muitas começaram a trabalhar apenas como artistas, muitas vezes nos mesmos estabelecimentos que gueixas do sexo masculino.
As gueixas que trabalharam dentro dos bairros de prazer eram presas e proibidas de "vender sexo", a fim de proteger o negócio das Oiran e para isso, existiam cortesãs autorizadas para atender as necessidades sexuais dos homens. Por volta de 1800, ser uma gueixa foi considerado uma ocupação feminina. A evolução do estilo das gueixas era imitada por mulheres elegantes por toda a sociedade.

Garotas Maiko - 1920
A Segunda Guerra Mundial trouxe um grande declínio nas artes das gueixas, pois em 1944, tudo no mundo das gueixas, incluindo casas de chá, bares, e casas de gueixas foram forçados a fechar, e todos os funcionários foram colocados para trabalhar nas fábricas ou outros lugares para trabalhar para esforço de guerra no Japão. O nome gueixa também perdeu algum status durante este tempo porque as prostitutas passaram a se referir como gueixas para militares americanos. Cerca de um ano depois, as casas foram autorizadas a reabrir. As poucas mulheres que voltaram para as áreas de gueixas decidiram rejeitar a influência ocidental e retomar as formas tradicionais de entretenimento e vida. A imagem da gueixa foi formada durante o passado feudal do Japão, e agora é a imagem que deve se manter para permanecer a cultura gueixa.

Princesa Japonesa

Princesa japonesa

As Aparências

Há muitas mudanças de aparência de uma gueixa ao longo de sua carreira, desde quando é uma jovem maiko, que é muito maquiada, até a aparência mais sombria de uma velha gueixa estabelecida. Diferentes penteados e grampos de cabelo significam diferentes estágios de desenvolvimento de uma jovem, e até mesmo um detalhe preciso como o comprimento de sobrancelhas é significativo. Sobrancelhas curtas demonstram juventude e longas demonstram maturidade.


A vestimenta da gueixa é o kimono. A gueixa aprendiz se veste com um quimono altamente colorido, com um extravagante obi. O obi é sempre mais brilhante do que as outras partes do kimono, para dar um certo equilíbrio exótico. A maiko de Kyoto usa o obi amarrado em um estilo chamado darari (balançando o obi), enquanto em Tóquio o estilo é o hangyoku, o obi amarrado de várias maneiras, inclusive como taiko musubi. A gueixa mais velha de Kyoto usa padrões mais suaves( principalmente o obi amarrado em um simples nó utilizado por mulheres casadas conhecido como o taiko musub, ou "nó de tambor". Tóquio e Kanazawa são locais onde a gueixa se veste no estilo yanagi musubi, ou "estilo de salgueiro", taiko musubi etsunodashi musubi.


O quimono de uma maiko aprendiz contém, além do obi pesado, mangas como bolsos chamado de furi. Durante uma dança ou performance, a aprendiz deve envolver as mangas, colocando seus braços dentro delas, embolsando-as, muitas vezes para evitar tropeçar. A cor, o padrão e o estilo de quimono dependem da época e do evento que a gueixa participa. No inverno, a gueixa pode ser vista usando um comprimento de três quartos, chamado haori, forrado com seda pintada à mão sobre o quimono. Este quimono forrado é usado durante as estações mais frias, e quimono sem forro durante o verão. Um quimono pode levar de dois a três anos para ser concluído, devido à pintura e o bordado

A geiko veste vermelho ou rosa sob o quimono. Uma maiko usa vermelho e branco com padrões impressos. O colarinho da maiko aprendiz é predominantemente vermelho com branco, prata ou bordados de ouro. Após dois a três anos em seu aprendizado, o colar vermelho será inteiramente bordado em branco para mostrar sua idade. Com 20 anos, seu colar irá mudar de vermelho para branco.

A gueixa usa uma sandália apertada, chamada zori ao ar livre, e usa apenas o tabi dentro de casa. Em condições climáticas adversas, a gueixa desgasta os tamancos de madeira, chamados geta. A maiko usa um tamanco de madeira especial conhecido como okobo.


Okobo
Zori
A maquiagem da gueixa é sua característica talvez mais peculiar. Ela é usada de acordo com seu grau de experiência. A sua aplicação é um processo demorado, e começa antes de se vestir para evitar sujar o kimono.

Quando é aprendiz, a gueixa usa a maquiagem de forma regular e mantém todo o rosto branco. Ela só usa a maquiagem quando precisa dançar ou para fazer uma performance a algum cliente.

Quem aplica essa maquiagem na gueixa podem ser a sua onee-san (ou irmã mais velha) ou pela okaa-san (ou "mãe"), de sua casa de gueixas. Sua aplicação é feita com muita cautela e perfeição. O tempo de duração dessa maquiagem pode ser de até duas horas.

A maiko usa um pó branco que cobre o rosto, pescoço e peito, com duas ou três áreas sem estar brancas (formando uma forma de W ou V, geralmente um tradicional forma de W) deixados na nuca, para acentuar uma área tradicionalmente erótica, e uma linha de pele nua em todo o couro cabeludo, o que cria a ilusão de uma máscara. Suas bochechas são acentuadas de pó rosa escuro, e os olhos são pintados de acordo com a idade (vermelho para as mais jovens e vai mudando para preto com a mistura de cores).



O processo começa com a aplicação de bintsuke-abura no rosto e a região superior do peito, aplicando a maquiagem em toda esta área. Esta cera ajuda a aderir a maquiagem na pele e também impede que a maquiagem caia em seu quimono, o que seria um erro muito ruim. Logo depois se mistura o pó branco com água para fazer uma massa, que é o que dá o aspecto mais branco e textura característica da maquiagem. Este pó foi feito originalmente com chumbo, que era venenoso para a pele e resultava em pontos amarelos nesta, mas hoje o pó é feito a partir de um pó cosmético moderno e é livre de chumbo, e não faz mal a saúde.

Ao longo da historia das gueixas os penteados variaram. No inicio, era comum que as mulheres usassem o cabelo para baixo, em alguns períodos, mais que em outros. Durante o século XVII, as mulheres começaram a deixar seu cabelo crescer, e é durante este período que o tradicional penteado Shimada, um tipo de tradicional coque usado pela gueixa mais estabelecida, é desenvolvido.


Existem quatro tipos principais da shimada: o shimada taka, um coque alto geralmente usado por jovens e mulheres solteiras, o shimada tsubushi, um coque mais achatado, geralmente usado por mulheres mais velhas, o uiwata, um coque que é normalmente ligada a uma pedaço de algodão colorido e um estilo que se assemelha a um pêssego partido ao meio, que é usado apenas pela maiko.




Estes são os mais conhecidos penteados e são decorados com elaborados pentes de cabelos e grampos. No século XVII e após o período da Restauração Meiji, os pentes de cabelo eram grandes e visíveis, geralmente mais ornamentados para as mulheres de classe mais elevada. Após a Restauração Meiji e na era moderna, os pentes de cabelo se tornaram menores e menos visíveis, tornando-se mais populares.


O penteado tradicional é uma arte que está morrendo lentamente. E ao longo do tempo, o penteado pode provocar calvície no topo da cabeça por isso recomendasse mais o uso de perucas personalizadas.

As inspirações na moda

A moda das gueixas pode parecer impossível de se reproduzir no oriente com tamanha perfeição e técnicas estéticas que os japoneses desenvolveram durante muito tempo para a construção deste estilo. Mas o que percebemos no mundo da moda não são as características das gueixas exatamente como elas são e sim como elas influenciam no modo de se vestir na maquiagem e nos sapatos casuais.

O primeiro exemplo de influencia da moda das gueixas é na própria moda urbana japonesa atual, o estilo visual Kei - Angura Kei. O termo vem de “undergroud kei”. São bandas com alta influência da própria cultura japonesa, principalmente tradicional, e que costumam adotar visuais geralmente com roupas típicas japonesas, um kimono, por exemplo, e uma maquiagem preta nos olhos e branca no rosto, muito semelhante com a da gueixa, mas desprovida de delicadeza por ser um estilo ‘’agressivo’’. O objetivo das bandas Angura Kei é criar algo o mais japonês possível, com o mínimo de influência estrangeira. Tem sua origem no movimento cultural dos anos 60, o “Angura”. Exemplo de banda “angura kei”, Onmyoza.

Angura Kei
Outra tendência que se inspirou nas gueixas talvez seja o sapatos plataformas em especial um modelo da estilista Vivienne Westwood, o chamado Rocking Horse , seu salto em madeira e seu formato lembram muito o dos “tamancos“ das gueixas a única diferença é que os modelos são geralmente fechados.

Vivienne Westwood - Rockin Horse
Salto Okobo

Há modelos de sapatos da marca Prada da coleção primavera/verão de 2013 que foram apresentados ano passado que ficaram bem conhecidos e foram chamados de “gueixa futurista”.




Esses e outros sapatos plataformas também vêm de inspirações do estilo gueixa.


Look inspirado nas gueixas:

Dois belos tutoriais de cabelo e maquiagem inspirados em gueixas.





Alguns looks inspirados na moda das gueixas.




É legal ver o quanto uma cultura perdurou e se espalhou por todo o mundo, isso se deu por conta da beleza e perfeição com que as gueixas se vestem e agem. Elas são exemplos de delicadeza para qualquer mulher.
Espero que tenham gostado e ate a próxima matéria!


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